Rede dos Conselhos de Medicina
CRM-PB Entrevista: Dr Charlles Jean Lucena de Oliveira Imprimir E-mail
Qui, 14 de Janeiro de 2021 10:29

Durante todo este mês, diversas instituições chamam a atenção das pessoas para as questões relacionadas à saúde mental e emocional, com a campanha Janeiro Branco. Em tempos de pandemia, o assunto torna-se ainda mais importante e aumenta a necessidade de se discutir os danos que o medo, o isolamento e o estresse têm causado à saúde mental da população em geral e, principalmente, dos médicos. “Esta situação pandêmica trouxe severos danos e a gente ainda não sabe a extensão dos comprometimentos, visto que pandemia não acabou”, afirma o psiquiatra e presidente da Sociedade Paraibana de Psiquiatria, Charlles Jean Lucena de Oliveira.

Aos 41 anos, formado em Medicina pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e com Residência Médica em Psiquiatria pelo Hospital São Vicente de Paulo, no Distrito Federal, Charlles, além de presidir a Sociedade Paraibana de Psiquiatria, realiza atendimento em seu consultório particular e é colunista semanal da rádio CBN João Pessoa.

Na entrevista a seguir, ele fala sobre a necessidade de se discutir e tratar as questões psiquiátricas de forma ampla e técnica e que é preciso diminuir o preconceito contra estas doenças para favorecer o acesso precoce a uma saúde mental de qualidade. Ele fala também dos impactos da pandemia na saúde mental dos médicos que estão na linha de frente contra a Covid-19, o crescimento dos transtornos depressivos e de ansiedade e sobre um possível legado que a pandemia poderia nos trazer: reentender a saúde mental, com prioridade.

Como a pandemia de Covid-19 tem afetado a saúde mental das pessoas?
A pandemia de Covid-19 afeitou a saúde mental das pessoas das mais diferentes formas. Afinal, a pandemia e o isolamento trouxeram situações completamente novas e inóspitas à população. Além de se lidar com o isolamento em si, tivemos que lidar com o medo da contaminação, medo de que algum parente se contaminasse, tivemos que lidar com as perdas financeiras, com as perdas pessoais, medo com relação ao futuro. Então, a gente sofreu as consequências da pandemia de forma direta e isso atingiu a população com relação à saúde mental de um jeito muito nocivo. Nós tivemos um aumento da incidência dos principais transtornos de saúde mental da população, um aumento assustador. Além disso, a situação nova funciona como gatilho para aqueles que nunca apresentaram transtorno mental antes, mas que já tinham predisposição. Então, toda essa situação pandêmica trouxe severos danos à saúde mental da população e a gente ainda não tem ideia, visto que a pandemia ainda não acabou, da extensão desse comprometimento.

Os médicos que estão na linha de frente contra a Covid-19 estão sabendo lidar com as pressões diárias? Eles também estão adoecendo mentalmente?
A maior parte dos médicos que estão na linha de frente contra a Covid 19 tem apresentado dificuldades ao lidar com essas pressões diárias que o trabalho exige, principalmente, no início da pandemia, quando a situação era nova, exigia medidas urgentes e não havia naquele momento o entendimento da extensão daquela situação, de como se transmitia, como se tratava. Os profissionais tiveram que se atualizar e se inteirar do que estava acontecendo e todos passaram pelo grande risco da contaminação. Então a linha de frente traz o fantasma da contaminação de forma muito mais direta e cai sobre esses médicos a responsabilidade de gerir e administrar essa situação. São pressões externas muito fortes e a gente não pode desconsiderar o impacto que isso trouxe, inclusive com o adoecimento físico e mental de muitos colegas.

Nem todos os problemas psicológicos são doenças de fato. Quando podemos perceber que estamos realmente ficando doentes emocionalmente?
A percepção da doença leva em conta o prejuízo biopsicossocial associado àquele quadro clinico. Então, o médico avalia a extensão dos sintomas, quanto eles impactam negativamente a qualidade de vida, acaretando sofrimento e trazendo prejuízo na funcionalidade. A partir do momento que esse sofrimento e esses prejuízos funcionais são grandes, a gente pode falar sim de que aquela situação, aquele dano emocional, de fato, é transtorno psiquíco e que merece ser acompanhado e tratado.


Estamos no Janeiro Branco, uma campanha durante todo o mês que coloca os temas da saúde mental em evidência. A Sociedade de Psiquiatria da Paraíba está realizando ações na campanha?
Não só no Janeiro Branco e no Setembro Amarelo, mas durante todo o ano, a Sociedade Paraibana de Psiquiatria, em comunhão com a Associação Brasileira de Psiquiatria, tem trabalhado em prol de uma maior conscientização social, em prol da necessidade de se tratar os sintomas mentais, se entender o paciente psiquiátrico, se evitar a psicofobia. Estamos abertos e disponíveis para discutir qualquer ação em prol de uma sociedade que visa melhorar a qualidade de vida do paciente psiquiátrico e entendê-lo em toda sua complexidade.

O Brasil é um dos recordistas mundiais em relação à depressão, ansiedade e números absolutos de suicídios, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). Como o sr analisa isso?
Eu vejo tudo isso com muita preocupação. De fato, o Brasil é um dos países com maior índice com quadro de transtornos de ansiedade, de transtorno depressivos e isso tem aumentado assustadoramente a cada ano. Só nos primeiros dias desse ano, nós tivemos aumento nesses tipos de transtornos. Mesmo levando em conta a pandemia e seus complicadores, esses índices já vinham crescendo nos últimos anos. É preciso se discutir e se tratar as questões psiquiátricas de forma ampla, técnica e diminuir o preconceito para favorecer o acesso precoce a uma saúde mental de qualidade, para que nós consigamos intervir precocemente e possamos garantir que a população não adoeça de forma tão severa.

O sr acredita que após a pandemia seremos pessoas mais ou menos equilibradas emocionalmente? A pandemia deixará algum legado para a saúde mental?
Acredito que com o fim da pandemia trará um alívio, claro. Precisamos desse respiro. Mas ao mesmo tempo deixará sequelas, deixará marcas. Então, por mais que nós estejamos aliviados, seria a hora de recolher os cacos e entender exatamente que tipo de prejuízo a nossa sociedade sofreu. Certamente lidaremos alguns anos ainda com os impactos da pandemia, em relação a saúde mental. Certamente teremos quadros depressivos, ansiosos, quadros de estresse pós-traumático e outros transtornos secundários a tudo que vivemos. Isso vai tomar um certo tempo para que se avalie, se trate e se cure. Só a partir daí a gente vai poder voltar a respirar de fato aliviados e seguir nossa vida normalmente. Espero que a pandemia deixe sim um legado, no sentido que a nossa saúde mental é frágil, deliciada e precisa ser cuidada. Nós vimos o quanto somos vulneráveis a situações externas a partir desse momento. Então, cabe a gente reentender a saúde mental e a psiquiatria com prioridade, tanto quanto com o cuidado ao corpo.

Última atualização em Qui, 14 de Janeiro de 2021 10:47
 
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